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HOMILIA DE NATAL 2011 |
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Homília de Natal
Irmãos e irmãs,
1 - A Igreja celebra desde tempos mais remotos a festa do Natal. O nascimento de Jesus, nosso Salvador. Esperado por séculos pelo Povo da Antiga Aliança, foi anunciado com jubilosa esperança pelos profetas, “porque nasceu para nós um Menino” (Is 9,5) como proclama Isaías na primeira leitura. O seu nascimento se deu em grande simplicidade, mas os anjos cantaram, os pastores se alegraram e a paz e a reconciliação entre a terra e o céu foram estabelecidas. O grande encontro, tão esperado, entre Deus e a humanidade aconteceu e a partir dele podemos descobrir em profundidade o sentido da história humana e da nossa vida. Os horizontes da nossa percepção se alargaram até ao infinito e o curso da existência terrena não mais termina com a morte natural, mas a partir dela se eterniza e se plenifica. Nós cremos no anúncio do anjo: “Não tenhais medo”! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todos: Hoje nasceu para nós um Salvador, que é o Cristo Senhor. (Lc 2,10-11).
2 - A História da Salvação foi resumida na primeira leitura pelo profeta Isaías. Uma humanidade envolta em trevas. Escravizada pelo pecado e pela morte foi libertada pelo nascimento de uma criança: o príncipe da paz. Os excessos cometidos pelos homens são a tentativa desesperada de sorver perigosamente a fugacidade de cada momento. No ano 66 a.C. o poeta latino Horácio escrevia nas suas Odes: “Não procures saber qual futuro os deuses nos reservaram. Sê sábio filtrando o vinho e encurtando a esperança, pois a vida é breve. Enquanto estamos pensando, o tempo já nos terá escapado: portanto colhe o instante (carpe diem) sem confiar no amanhã”.
3 - A sabedoria pagã eliminava a esperança e se fixava no presente sorvendo-o com avidez e recordando com saudade as conquistas do passado. O futuro, sem a fé, será sempre desconhecido e, possivelmente, temido. Já para nós, cristãos, o futuro é que dá significado ao presente, pois, ao contrário, de Horácio, nós “aguardamos a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2,13). A ausência de perspectiva produz um egoísmo autofágico que traz desespero e morte antecipada da alma. Nesta lei da selva os mais frágeis sucumbem impiedosamente aos mais fortes. As crianças sacrificadas, mesmo antes de nascer, revelam que o amor se reduziu a uma união de corpos por mero prazer individual, sem nenhum compromisso. Sem amor, sem vida! Ternura, fidelidade, lealdade, verdade, compromisso e as virtudes humanas e cristãs são plantinhas tão delicadas que precisam ser cuidadosamente cultivadas, pois estão sob ameaça constante nos dias de hoje.
4 - O Natal é momento de retomarmos o rumo perdido, a infância espiritual cheia de sonhos e de expectativas. Sonhos e expectativas que sem deixar sua candura infantil são baseados em fundamentos sólidos, historicamente precisos na preocupação da narrativa de Lucas, conforme o Evangelho desta noite. A fé dos apóstolos que nos foi transmitida pela Igreja nos garante a interpretação correta destes fatos e dos seus significados que hoje nos enchem de alegria e esperança. Nós celebramos a memória de um passado histórico que nos remete a um futuro esperançoso, pleno da divindade. Deus plantou, de uma vez por todas, no cerne da história o seu Verbo. Enviou-nos o seu Filho, “sol nascente que nos veio visitar” (Lc 1,78). Uma luz que nos trouxe esperança como nos garantiu o velho profeta Isaías: “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1).
5 - O profeta evoca a situação de uma humanidade em exílio que tem a possibilidade de ser colhida pelo amor incondicional e misericordioso de Deus nas formas de luz, de alegria, de libertação. O portador desta salvação é enaltecido com expressões gloriosas e triunfantes. Ele é um menino que tem a sabedoria de Salomão, a coragem de Davi e a unção de Moisés e dos Patriarcas. Ele é o Emanuel, Deus Conosco. Ele também se fez prisioneiro de nossas angústias. Ele se tornou solidário aos que estavam imersos nas trevas da desordem, do desamor, do desespero e da morte. Por isso ele é o libertador, o condutor dos escravos para a liberdade, que traz vista aos cegos, que cura os feridos e ressuscita os mortos. Na sua carta a Tito, São Paulo indica-nos os frutos concretos desta manifestação da Graça de Deus: “Ela nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade” (Tt 2,12).
6 - Somos irresistivelmente atraídos pela Graça mesmo sem o sabermos. As Escrituras Sagradas nos garantem que o Amor de Deus nos seduz como seduziu profetas, santos, confessores e mártires. A Moral cristã não se reduz a regras ou obrigações impostas, mas um programa que liberta e que nos humaniza. E, na medida em que somos seduzidos e atraídos para o Senhor, a vida se organiza, a paz se restabelece, a verdade triunfa, pessoas se doam e a fraternidade humana se consolida. Não conseguiremos contar o número incalculável de testemunhas de esperança e paz que o Mistério da Encarnação produziu nestes dois mil anos da aventura cristã no mundo.
7 - Por isto o Apóstolo continua: “Ele se entregou por nós, para nos resgatar de toda maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem” (Tt 2,14). Muitos ainda não acreditam plenamente nesta Boa-Nova, mas a mesma paciência de Deus, para o qual mil anos são como o dia de ontem que passou, continua tecendo na história sua teia de amor. Ele aguarda o momento propício que é reservado a cada um de nós. Para que ele nos tire da falta de esperança, da tristeza, do desânimo, da depressão, é preciso deixar-nos invadir pela sua presença, pois na comunhão com ele e com todos os que fazem parte do seu corpo seremos libertados para o amor e para a vida. E a luz venceu as trevas, a ordem venceu o caos, a vida venceu a morte. Por isto o canto do coro dos anjos aos pastores ecoa no universo inteiro: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).
8 - Prezados irmãos e irmãs, pode ser que nesta noite de Natal alguns dos que estão aqui conosco estejam um pouco afastados das riquezas da nossa fé. Perderam o contato com a sua Igreja. Mas hoje estão aqui celebrando o Natal. Sem dúvida experimentam que de alguma forma fazem parte de algo maior que a própria solidão lhes remete. Percebem que não faz sentido celebrar este momento sem alguma referência ao Mistério. Dirijo-me em especial àqueles que só visitam sua família de fé por estas ocasiões como o Natal. Sintam em profundidade a beleza da nossa fé, do Mistério imenso do amor de Deus por cada um de vocês. A Igreja Católica continua sendo sempre a sua casa, sua família ampliada e aqui sempre serão bem-vindos.
9 - Outros talvez estejam com sombras no coração. A saudade de alguém que partiu, a solidão da família ausente, a doença que impede o brilho da festa, a mágoa guardada no coração. Não permita, caro irmão, cara irmã, que estas sombras ocultem a beleza e a grandeza do Mistério do Natal que está para além de toda fragilidade humana. Nenhuma sombra ou treva resiste à poderosa luz do Senhor. Parafraseando o Papa Bento XVI podemos exclamar: Deus é tão grande que não teme se fazer pequeno, tão poderoso que não hesita em se tornar fraco e nos vir como criança indefesa, para que o possamos amar! Este é o nosso Natal. O Natal de Cristo, que é o mesmo ontem, hoje e sempre! Amém!
Pe. José Cândido – Pároco
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